segunda-feira, 28 de julho de 2008

O cavaleiro das trevas

A função do herói é proteger (tem regras, não mata, é o bem), e a do vilão, destruir (sem regras, o mal). Apesar de opostos, têm princípios claros, iguais em certo ponto. Não à toa, num momento do filme, ambos frente a frente, Coringa fala que Batman o completa, que enfim encontrou alguém à altura, incorruptível, sem preocupação por dinheiro: não é como um deles, um “mafioso”. Mas Batman é corruptível, não no sentido literal da palavra, e o arquiinimigo sabe disso (explicarei mais adiante). E aqui, Coringa é como o Imperador Palpatine, de Guerra nas estrelas, ou o diabo em O Exorcista. Conhece bem e sabe explorar o ponto fraco do outro lado. Os três corrompem o vínculo afetivo/materno com a figura feminina. Em Guerra nas Estrelas, Anakin Skywalker se sentirá culpado pela morte de Padmé; Padre Karas, em O Exorcista, por abandonar e perder a mãe num asilo: ele enlouquece quando o demônio fala com a voz da mãe, o porquê de tê-la abandonado; e Batman, pela paixão que sente por Rachel Dawes, que será corrompida quando o palhaço envolver, não a mulher propriamente dita, apesar de ela ser o estopim, mas o lado emocional (sempre frágil, imaturo, infantil) em seus planos. Assim será com Harvey Dent.
Harvey Dent é o novo promotor público de Gotham, a esperança de justiça numa cidade outrora corrompida em todas as esferas do sistema pela máfia. O cavaleiro branco é esperança de aposentadoria para o cavaleiro negro voltar a ter uma vida normal (Batman cansou de interpretar Batman, assim como Bruce Wayne – o playboy beberrão (que não bebe) e mulherengo (que não ama) – de interpretar Bruce Wayne. Como o herói mascarado, este tem fragilidades, qualidades e impulsos. Também tem regras, é honesto, e não tem medo de enfrentar os poderosos de Gotham. Mas, como mencionei acima, é humano, tem falhas (todos somos Duas Caras no sentido simbólico, proposto no filme. Não há maniqueísmos, bem e mal, preto e branco. Somos cinza!) e, como Batman, será tentado para o lado negro da força. E será na ausência da figura materna, na dificuldade em romper "o cordão umbilical" que Harvey será corrompido. O bem será desfigurado. Padre Karas será o demônio em O Exorcista antes de se jogar pela janela, Anakin Skywalker, no filme Guerra nas Estrelas, terá o rosto deformado pelo fogo da lava, e Dent, metade do rosto queimado. Principalmente nos dois últimos casos, surgirá a figura paterna. Imperador Palpatine como pai e mentor de Darth Vader, e...

E será num hospital, lugar em que se concebem vidas, que nascerá o novo lado do mal. Como uma criança, uma página em branco, o promotor é uma esponja seca e será imersa, preenchida e amamentada na insanidade do palhaço; surgirá no vácuo deixado pelo herói. Vácuo (sentimento) de ódio pela perda da mulher amada. Coringa alimentará esse ódio às alturas, e conceberá assim como um pai, um discípulo à altura, um novo Don Corleone. Não existirá mais cinza só negro. Será puro como o arquétipo do mal representado pelo arquiinimigo do morcego.

No último confronto entre herói e vilão, Batman renascerá das trevas (out of the darkness, expressão citada em alguns comerciais para televisão), aceitará a morte, desapego que tanto Dent (ódio) quanto Anakin e Karas (culpa) não se livram. Mas este renascimento não será triunfal. O herói estará sem forças, exausto, ofegante, frente ao confronto com o mal supremo (não há espaço para mudança no mal). Batman não é onipresente e onipotente, mesmo como o olho que tudo vê (explorarei isso mais adiante). Ele sabe que o desejo de uma vida normal ficará para depois. Por isso, o retorno do cavaleiro será triunfal, ele reconhece que cabe a ele o ônus da esperança e da não-esperança (o ônus da culpa que ele carrega) na falta de símbolos em Gotham. Terminará o filme sem a saída triunfal, com vôo coreografado, mas flagelado, mancando, e fugindo.

A mecânica dos sentidos

Desde o primeiro conflito no Golfo, passando pela Somália, Kosovo até a cruzada anti-terror no Afeganistão/Iraque), as batalhas americanas viraram jogos de vídeo game, com aviões não tripulados, satélites, imagens em tempo real de um lugar do mundo ao outro, mas esta conquista espacial não significa a vitória total (o famoso Mission accomplished; a conquista dos corações e mentes). O olho que tudo vê, não é o olho que tudo pode, com exceção da mídia (falarei sobre o papel desta no parágrafo abaixo). Em terra, os que ali pisam são vulneráveis. Exemplo disso é a da morte de 18 soldados americanos (em terra) na batalha de Mogadíscio –livro de Mark Bowden, Falcão Negro em Perigo: a História de Uma Guerra Moderna- Somália, e mais de 4.000 mortos no Iraque, muitos dos quais devido aos IED's (improvised explosive device), bombas plantadas no chão (na terra), que explodem ao toque de um celular. Batman, assim como o exército americano, também é o olho que tudo vê nos filmes da série. As seqüências filmadas de cima mostram isso. O vigilante reinando numa arquitetura uniforme, singular, silenciosa, em paz. Em terra, o terror reinará. Ameaças, caos, desordem, impotência, num lugar sem controle (pluralidade, diversidade ) do ambiente.

A imagem (mídia) como o olhar que tudo pode, na necessidade de mostrar o agora, compete, ironicamente, com o (único) olhar que vem de cima. Ironicamente, pois a imagem representada pela televisão, entrou no tempo real, exemplo do choque dos aviões contra as torres gêmeas, é o novo big brother, o grande irmão que guiará nosso olhar mundo afora.

Na batalha contra o mal, (Coringa, Bin Laden, Al Qaeda?) o herói será também o que tudo ouve, como o ato patriótico –controversa lei da doutrina Bush para interceptar ligações telefônicas sem autorização da justiça sob suspeitas de terrorismo- quando usa um aparelho para escutar todas conversas de Gotham. Anti-ético e muito poder para um homem só - o Todo-Poderoso, o Julio César- nas palavras de Lucious Fox.

Todos sentidos reunidos em um só sabor.

6 comentários:

Silvana da Costa Alves disse...

IMPRESSIVE. Quem esperava comentários cinematográficos deve ter parado na metade do texto que
merece se chegue ao final, pra que as idéias e ideais sejam compreendidos no todo. A lembrança do maniqueísmo
também explorado por Saramago em seu 'evangelho' dá a linha do que se lerá a seguir. Questões colocadas e nem sempre
respondidas, fazem com que se fique a pensar no que foi levantado - terá sido intencional?
O largo conhecimento da realidade mundial e sua ligação com o eterno desconforto humano em optar por um
lado ou outro da força, assim como todas as referências cinematográficas e literárias j´ja são,por si só, um atrativo
pra continuar a leitura.
Um outro outro uso de parênteses desnecessários no momento, já que o autor pretende mesmo seguir
com seu blog, e outros detalhes insignificantes não comprometem nem impedem a completa absorção do texto
e a certeza de que é alguém que merece bem mais que dois minutos de atenção numa conversa.

Will Pereira disse...

Walther, aguardo outros posts tão bons quanto estes, cara. Parabéns.

abração

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Um ano acompanhando nos bastidores essa "Jokermania" que outrora era somente você que tinha. E lá tava você vendo os sites, as notícias, vídeos, reportagens ( furos) e mais uma série de coisas. o "D-day" chegou, você viu o filme e fez um ( como você diz) " Pequeno comentário " ( como sempre pela "pegada da arte). E vi nascer não só um comentário simples e descritivo, foi um trabalho onde, a pesquisa era feita pela paixão que o filme deixava, as tais "campanhas virais" que eram divulgadas de forma suaves a bem mais de um ano, isso veio te fascinando a cada dia mais. As comparações e conexões da " rede" que você montou ficaram perfeitas, Passando por B.C até A.C ( Julius Caesar - Bin Laden) Conexões com o mundo real( Iraque) e o fictício ( Gothan) de uma maneira sutil, bem fundamentada e bem observada, intrigam a quem possa vir ler o comentário, não é nenhum pouco mecânico ( como uma síntese) e nem nada escrito por grandes e conhecidos críticos de cinema.Você fez a linha da " Críticando a crítica do cinema" fez teu comentário olhando o " Behind the courtain" do filme, dos atos, das falas.. Não foi somente um filminho tipo " herói-vilão ;mau-perde,bem-ganha" a sua Hermenêutica foi além dessa visão simplista.

Lembrando do filme, e lendo o teu " comentário" , consigo perceber a relação conectiva dos fatos por você mostrados

Parafraseando "não lembro quem" uma palavra define o seu comentário sobre o filme : Soberbo.

( assim como o próprio filme)
Abraço e parabéns pelo tem bom trabalho, merece um "jkpalmas".

Unknown disse...

Yupex

Luana Smeets disse...

"a palavra é o seu domínio sobre o mundo" ^^

Parabéns e usando, mais uma vez, Clarice Lispector:

"Que ninguém se engane, só se consegue simplicidade através de muito trabalho" ;)