Harvey Dent é o novo promotor público de Gotham, a esperança de justiça numa cidade outrora corrompida em todas as esferas do sistema pela máfia. O cavaleiro branco é esperança de aposentadoria para o cavaleiro negro voltar a ter uma vida normal (Batman cansou de interpretar Batman, assim como Bruce Wayne – o playboy beberrão (que não bebe) e mulherengo (que não ama) – de interpretar Bruce Wayne. Como o herói mascarado, este tem fragilidades, qualidades e impulsos. Também tem regras, é honesto, e não tem medo de enfrentar os poderosos de Gotham. Mas, como mencionei acima, é humano, tem falhas (todos somos Duas Caras no sentido simbólico, proposto no filme. Não há maniqueísmos, bem e mal, preto e branco. Somos cinza!) e, como Batman, será tentado para o lado negro da força. E será na ausência da figura materna, na dificuldade em romper "o cordão umbilical" que Harvey será corrompido. O bem será desfigurado. Padre Karas será o demônio em O Exorcista antes de se jogar pela janela, Anakin Skywalker, no filme Guerra nas Estrelas, terá o rosto deformado pelo fogo da lava, e Dent, metade do rosto queimado. Principalmente nos dois últimos casos, surgirá a figura paterna. Imperador Palpatine como pai e mentor de Darth Vader, e...
E será num hospital, lugar em que se concebem vidas, que nascerá o novo lado do mal. Como uma criança, uma página em branco, o promotor é uma esponja seca e será imersa, preenchida e amamentada na insanidade do palhaço; surgirá no vácuo deixado pelo herói. Vácuo (sentimento) de ódio pela perda da mulher amada. Coringa alimentará esse ódio às alturas, e conceberá assim como um pai, um discípulo à altura, um novo Don Corleone. Não existirá mais cinza só negro. Será puro como o arquétipo do mal representado pelo arquiinimigo do morcego.
No último confronto entre herói e vilão, Batman renascerá das trevas (out of the darkness, expressão citada em alguns comerciais para televisão), aceitará a morte, desapego que tanto Dent (ódio) quanto Anakin e Karas (culpa) não se livram. Mas este renascimento não será triunfal. O herói estará sem forças, exausto, ofegante, frente ao confronto com o mal supremo (não há espaço para mudança no mal). Batman não é onipresente e onipotente, mesmo como o olho que tudo vê (explorarei isso mais adiante). Ele sabe que o desejo de uma vida normal ficará para depois. Por isso, o retorno do cavaleiro será triunfal, ele reconhece que cabe a ele o ônus da esperança e da não-esperança (o ônus da culpa que ele carrega) na falta de símbolos em Gotham. Terminará o filme sem a saída triunfal, com vôo coreografado, mas flagelado, mancando, e fugindo.
A mecânica dos sentidos
A imagem (mídia) como o olhar que tudo pode, na necessidade de mostrar o agora, compete, ironicamente, com o (único) olhar que vem de cima. Ironicamente, pois a imagem representada pela televisão, entrou no tempo real, exemplo do choque dos aviões contra as torres gêmeas, é o novo big brother, o grande irmão que guiará nosso olhar mundo afora.
Na batalha contra o mal, (Coringa, Bin Laden, Al Qaeda?) o herói será também o que tudo ouve, como o ato patriótico –controversa lei da doutrina Bush para interceptar ligações telefônicas sem autorização da justiça sob suspeitas de terrorismo- quando usa um aparelho para escutar todas conversas de Gotham. Anti-ético e muito poder para um homem só - o Todo-Poderoso, o Julio César- nas palavras de Lucious Fox.
Todos sentidos reunidos em um só sabor.